Indígenas têm vitória ocupando multinacional

Após mais de um mês de ocupação pelos indígenas do terminal portuário da Cargill, em Santarém (PA), o governo Lula anunciou o revogação do decreto 12.600/2025. O decreto incluía no famigerado Programa Nacional de Desestatização de Sarney, pelo nosso governo, três hidrovias no Norte do país: a Hidrovia do Rio Madeira, de Porto Velho (RO) até a foz do Amazonas, em Itacoatiara (AM), a Hidrovia do Tocantins, de Belém (PA) e Peixe (TO), e a Hidrovia do Tapajós, de Itaituba (PA) até a foz do Amazonas, naquela cidade.

Em janeiro deste ano, indígenas de 14 etnias , com apoio de movimentos populares da região, ocuparam as instalações da empresa em protesto contra a medida, com 1200 pessoas. No início de fevereiro, o governo chegou a sugerir a suspensão de seu próprio decreto, mas as lideranças indígenas afirmaram que a medida não contemplava suas reivindicações e que os protestos só parariam com a publicação da revogação, o que acabou ocorrendo na segunda-feira (23), após reunião entre lideranças indígenas, o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara (PSOL).

A Cargill é uma multinacional estadunidense gigante, com sede em Mineápolis e opera em 70 países na produção e processamento de alimentos. Ela é a uma das maiores empresas privadas de capital fechado dos Estados Unidos. Só em 2024 registrou uma receita de US$ 154 bilhões, cerca de R$ 850 bilhões. A privatização e a dragagem dos rios era de seu interesse direto de olho no escoamento de commodities agrícolas produzidas na região.

Estudos da Secretaria de Meio Ambiente do governo do Pará, do ICMBio e do Ibama (órgãos ambientais federais) apontam que a dragagem pode causar a piora na qualidade das águas, prejuízo à pesca, impacto nas condições de transporte fluvial das populações locais e interferências na reprodução de animais silvestres.

A luta e a vitória exemplar dos indígenas gerou calafrios em alguns. Editorial do Estadão deixou desnudas as preocupações da burguesia. Sob o título de “Um governo pusilânime”, afirmou que “bastaram a gritaria, episódios de violência e ataques a instalações privadas para que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidisse revogar o decreto que abria caminho para a concessão de hidrovias na Amazônia. Se decisões estruturantes continuarem a ser tomadas e desfeitas ao sabor da pressão, será melhor abandonar de vez o discurso sobre segurança jurídica e previsibilidade” (25/02/2026).

A vitória comprovou que o discurso imobilista da “falta de correlação de forças” para justificar muitas vezes a paralisia das direções do Partido dos Trabalhadores e do PSOL, de certos sindicatos e organizações sociais, precisa ser respondido com ação por baixo do povo.  Esta lição é atualíssima, ela abre de fato um ano eleitoral desafiante.

A lição deve servir na luta pelo fim da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho, que não pode se limitar ao debates dos nobre parlamentares, para ser postergada na véspera da eleição. É sobretudo a luta na rua e nas empresas que pode vencer!

A conquista dos indígenas sobre os interesses do poderoso agronegócio e das multinacionais em solo brasileiro mostrou o caminho.

Marcelo Carlini, membro do Diretório Estadual do PT-RS

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