Venezuela: Trump passa a mão no petróleo

O acordo petrolífero anunciado por Trump em 28 de agosto e confirmado pela presidente interina Delcy Rodriguez no dia seguinte, foi aprovado por uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional, presidida por Jorge Rodríguez, irmão da presidenta, já em 1º de setembro.

O Convenio Energético Binacional entre a Venezuela e os Estados Unidos, nome oficial do acordo, foi qualificado pelo grupo parlamentar do PSUV, partido que oficialmente apoia o governo de Delcy, como “o instrumento econômico mais importante dos últimos cem anos”. Resta saber para quem, se para a nação venezuelana e seu povo, ou para os interesses econômicos e geopolíticos do governo Trump.

Para o presidente dos EUA não há dúvida, ele declarou num ato político em 3 de setembro: “Tomamos o controle da Venezuela e já pagamos a guerra umas 54 vezes. […] A Venezuela está prosperando maravilhosamente e nós também estamos ganhando muitíssimo dinheiro”.

A apoio da Assembleia Nacional ao acordo desatou uma onda de críticas e de rechaço que abarcou movimentos de trabalhadores, ativistas sociais, partidos de esquerda, analistas e estudiosos do tema petróleo.

A deputada Iris Varela, voz dissidente no PSUV, em entrevista no dia 3 de setembro, disse que o acordo foi assinado “sob coação” e que “pode ser revogado pelo Executivo ou pela Assembleia, uma vez cessadas as causas que o motivaram”, citando o artigo 339 da Constituição. Iris ainda afirmou que essas causas “caducarão quando o presidente Nicolás Maduro retorne ao país”.

Já Diosdado Cabello, secretário geral do PSUV, defendeu o acordo que concede a exploração de 17 campos ao capital privado autorizado pelos EUA, num investimento de mais de 100 bilhões de dólares, comprometendo 65 bilhões de barris de petróleo das reservas comprovadas da Venezuela, cerca de 20% de seu total, por um período inicial de 25 anos.

Lideranças políticas e sindicais venezuelanas alertam que, por trás da fachada dos 25 anos, o acordo pode vir a amarrar essas reservas da Venezuela aos EUA por 100 anos. É um tratado que entrega o principal motor econômico do país para o governo Trump, no que se constitui uma capitulação histórica por parte do atual governo.

A empresa autorizada pelos EUA a arrecadar os fundos e perfurar as áreas das reservas é a North American Blue Energy Partners (NABEP), dirigida pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt.  O governo dos EUA terá participação acionária de 35% na NABEP, com o direito de comprar a preço de custo 20% da futura produção, tendo também a prioridade na compra do 80% restante a preços de mercado.

Para o governo Trump este acordo significa assegurar reservas de petróleo, que se somam às suas reservas atuais de 46 bilhões de barris, no seu “quintal”: o protetorado em que transformou a Venezuela desde a agressão militar de 3 de janeiro e o sequestro de Maduro. Já o governo de Delcy Rodriguez cede o controle do subsolo ao capital privado monitorado por Washington em troca de sua sobrevivência política.

O povo trabalhador da Venezuela, aturdido pela colaboração aberta de seu atual governo com o agressor Trump, busca o caminho da recuperação da sua soberania e independência nacional e para tanto necessita da solidariedade daqueles que, na América Latina, nos EUA e no mundo, abraçam a luta anti-imperialista.

É o que pede o Comitê Autônomo e Independente de Trabalhadores (CAIT), desde a Venezuela, ao denunciar e rechaçar esse acordo de entrega da soberania e ao lutar pelo fim do protetorado dos EUA sobre o seu país.

Julio Turra, membro da Secretaria Sindical Nacional do PT

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