Eleições na Espanha: a crise do regime

Os resultados das eleições legislativas da Espanha, no domingo, 28 de abril, confirmaram a vitória do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) que vinha sendo apontada nas pesquisas. Mesmo se não foi um recorde, a participação atingiu o importante número de 75% do eleitorado, ultrapassando em 9% a quantidade de eleitores que foram às urnas nas eleições de 2016. O PSOE passou de 84 a 123 deputados, recuperando quase dois milhões de votos em relação a 2016.

Mapa eleitoral das eleições gerais espanholas (Wikipedia)
Mapa eleitoral das eleições espanholas (Wikipedia)

Derrota da direita

Mas a chave para compreender o significado dessas eleições é o resultado dos três partidos de direita, notadamente do Partido Popular (PP) que desabou, perdendo a metade dos seus votos e passando de 137 deputados eleitos em 2016 para 66 agora. A imprensa dá grande destaque à entrada no Parlamento do partido de “extrema-direita” (Vox) mas se esquece de dizer que os três partidos de dimensões nacionais da direita têm as mesmas origens.
De fato, em 1976, alguns meses após a morte do general Francisco Franco (ditador da Espanha de 1938 a 1975), as diferentes facções franquistas constituíram, sob a direção de Fraga Iribarne (antigo Ministro do Interior de Franco) um partido chamado Aliança Popular. Em 1989 esse partido mudou de nome e passou a se chamar Partido Popular, sob direção de José Maria Aznar. Hoje, os três partidos, Partido Popular, Cidadãos e Vox têm as mesmas origens. O principal dirigente de Vox, Santiago Abascal, por exemplo, foi deputado regional do Pais Basco pelo PP.

A pulverização da direita, facilitou a vitória do PSOE (vitória relativa porque precisará fazer acordos para montar o governo). Ao mesmo tempo, essa pulverização aprofunda a crise do regime. Com efeito, o PP era a representação “legítima” das instituições herdadas do franquismo e o principal sustentáculo da monarquia.
O jornal ABC, de 29 de abril, primeiro porta-voz da monarquia, não se engana quando afirma: “A Espanha está sob o risco de liquidação do consenso estabelecido pela transição (…), portanto, de liquidação do regime de 1978” (1)

“Não passarão!”

Na noite das eleições, 28 de abril, em frente à sede do PSOE em Madri, na Rua Ferraz, a massa de militantes socialistas gritava a palavra de ordem tradicional contra o franquismo.
Pedro Sanchez, Secretário Geral do PSOE, para tentar acalmar os espíritos, declarou: “Nós vamos estender a mão a todas as formações políticas que respeitem a Constituição”. A resposta da massa foi clara: “Não com Rivera!”. Tradução: Rivera é o Secretário Geral do partido Cidadãos que podemos caracterizar como a ala mais liberal e “moderna” do franquismo. Para os militantes socialistas e para os eleitores quase não há diferença entre os três partidos de direita.
A palavra de ordem gritada pelos militantes expressa a aspiração da maioria que não quer nenhum acordo com os partidos de direita numa situação em que, face à derrota do PP, os porta-vozes do capital financeiro declaram que a melhor solução para a Espanha seria um governo PSOE/ Cidadãos que, inclusive do ponto de vista parlamentar, daria uma maioria de 180 deputados sobre 350. Essa já era a posição do jornal inglês The Times da semana passada, reproduzida agora por jornais espanhóis.

Partidos que defendem a soberania dos povos também avançaram

Ao mesmo tempo em que o partido Podemos caiu significativamente, passando de 71 para 42 deputados, progrediram bastante os partidos que, na Catalunha, no País Basco, na Galícia, colocam no centro o direito à autodeterminação dos povos.
A Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) que tomou distância do ex-presidente da Catalunha, Carlos Puigdemont, e da via unilateral para conquistar a independência, progrediu de 9 para 15 deputados. No País Basco, os representantes dos antigos defensores da luta armada passaram de dois para quatro deputados. Paralelamente a essa progressão, nenhum partido nacional da direita espanhola conseguiu obter representação parlamentar no País Basco. Conseguiram apenas dois deputados na Catalunha. Na Galícia, considerada como uma das regiões mais atrasadas politicamente, pela primeira vez a direita foi derrotada.

O combate pelos direitos sociais e democráticos

O resultado eleitoral mostra que foi dada uma maioria aos partidos que se reivindicam da classe operária e aos partidos que se reivindicam do direito à autodeterminação. Essa é uma aliança necessária para enfrentar o regime monarquista e seus representantes políticos. Todos os elementos estão dados para mostrar é possível realizar a junção entre a defesa do atual sistema de aposentadoria, o combate pela anulação das contrarreformas, do direito do trabalho e a defesa das liberdades, em particular pela anulação dos iníquos, perversos, injustos processos em curso contra os militantes catalães.
É isso que está em jogo no próximo período e que vai determinar a formação do próximo governo que deverá, sem dúvida, ser formado somente após as próximas eleições de 26 de maio. De fato, dia 26 ocorrerão as eleições para o parlamento europeu, das quais ninguém fala, mas nesse mesmo dia haverá eleições numa dezena de regiões e, principalmente, eleições municipais em todo o território da Espanha. Os porta-vozes da direita temem que essas eleições venham a ser um segundo turno e que sua derrota seja amplificada, principalmente nas grandes cidades.

Angel Tubau
Artigo originalmente publicado em Jornal O Trabalho edição 846


(1) 1978 é o ano da promulgação da Constituição que restaurou a monarquia e preservou setores inteiros das instituições franquistas.

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