Belford Roxo: o impasse da “política de alianças”

A direção vai pôr a mão na consciência?

Markus Sokol na Executiva Nacional do PT
Makus Sokol. Foto: Agência PT

A direção vai pôr a mão na consciência? Teve grande repercussão na base petista a decisão do Diretório Nacional de 7 de agosto de validar a decisão do Encontro de Belford Roxo/RJ, de aliança para a reeleição do prefeito Wagner Carneiro, Waguinho, do MDB. Um recurso encabeçado por Tainá Senna, jovem pré-candidata a prefeita, foi rejeitado por 29 votos contra, 25 a favor, e nada menos que 11 abstenções. Os membros do DAP votaram a favor do recurso (contra a aliança). As correntes CNB e Movimento PT em peso bancaram a aliança.

O argumento usado é que o prefeito não é bolsonarista mas “malandro carioca”, nem seria hostil porque montou palanque na caravana de Lula. Mas, em 2018 ele fez campanha para Bolsonaro e seu filho Flávio. A deputada federal Daniela do Waguinho, sua esposa, é da base bolsonarista. Na mesma semana do DN, a imprensa registrou ( veja o vídeo abaixo) como ele o recebeu no palanque – “tenho orgulho da deputada Daniela fazer parte do governo do seu pai”. O que seria mais do que suficiente para interditar essa aliança. Mas não.

Senador Flávio Bolsonaro e o prefeito Waguinho

Acontece que a resolução da Comissão Executiva Nacional do PT em fevereiro (ver box) – aprovada por maioria contra os dois votos de Jilmar Tatto e Markus Sokol em defesa da resolução do 7º Congresso de novembro (ver box 2) -, ao pé da letra, no limite não impede essa aliança absurda. O caso de Belford Roxo ilustra a confusão criada.

Que confusão!

Aquela resolução da CEN “decide que não ocorram alianças com os partidos que sustentam o projeto ultraneoliberal (DEM, PSDB) e veta qualquer aliança com aqueles que representam o extremismo de direita”. Ora, o MDB não é citado e não é de extrema-direita, é do “centrão”, hoje próximo de Bolsonaro.

A CEN nunca explicou a diferença entre o que “não ocorre” e o que “veta”… nem poderia. Mas a tortura da língua portuguesa serviu para que, nos meandros tortuosos dessa resolução, várias alianças esdrúxulas sejam feitas e autorizadas pelos Diretórios Estaduais e pela CEN.

Há várias cidades onde o PT se aliou com o DEM e o PSDB, além de outras siglas da direita. Mas o caso de Belford Roxo, cidade com 511 mil habitantes na região metropolitana do Rio, criou uma onda de choque na opinião pública. Há uma reação indignada entre os petistas. Um pedido de “reconsideração” do caso foi encaminhado ao DN.

Uma carta de ex-presidentes do PT (Zé Dirceu, Rui Falcão, Genoíno, Tarso e Berzoini) pediu corretamente uma retificação, mas erradamente aproxima a decisão da CEN com o 7º Congresso. Eles dizem que “as resoluções de nosso 7º Congresso e da direção partidária são inequívocas: nenhuma aliança pode ser estabelecida com o neofascismo” – para aliar basta não ser “neofascista”? Não com qualquer um, para a resolução do 7º Congresso, mas sim para a CEN.

Por alianças democráticas e antiimperialistas

É possível que o caso de Belford Roxo seja reconsiderada. O tanto de abstenções e o mal-estar em setores do CNB indica isso.

Mas é preciso aprender com os erros, inclusive a chamada “esquerda” que em fevereiro votou a resolução da CEN.  Não basta se declarar oposição para “autorizar” aliança. O PSDB e muitos golpistas, hoje, no parlamento às vezes votam contra alguma coisa, mas apoiam a política econômica privatista. É preciso acabar com a confusão para não se enroscar em novo casos esdrúxulos no segundo turno.

As alianças devem se basear numa plataforma de governo com demandas imediatas do povo, nos termos do Congresso do PT, com partidos como PCdoB e PSOL e também setores populares do PSB, PDT e outros.

O PT ampliou este ano o número de candidaturas próprias a prefeito e a parcela do eleitorado que disputa. Não se pode frustrar outra vez o empurrão que vem de baixo!

Markus Sokol

Resolução do 7º Congresso do PT, 29 de novembro
O PT deve ser protagonista nas eleições municipais de 2020, lançando candidaturas próprias onde for possível. O PT, que não nasceu para ser força de apoio, deve puxar uma frente democrática e anti-imperialista contra Bolsonaro e os golpistas. As alianças necessárias são programáticas, com base numa plataforma de governo que contemple as demandas mais imediatas do povo, ou seja, alianças anti-imperialistas nos termos do 6º Congresso do PT, com partidos como PCdoB e PSOL e também setores populares do PSB, PDT e outros. Não cabem alianças com partidos que dão sustentação ao programa de destruição da nação e dos direitos da classe trabalhadora imposto por Bolsonaro. Não será “de esquerda” nem “ampla”, uma frente que não trouxer as principais reivindicações do povo e a exigência de anulação dos processos contra Lula.

Resolução da Executiva, 8 de fevereiro
O PT define como centro estratégico eleitoral a construção de alianças com PCdoB, PSOL, PDT, PSB, Rede, PCO e UP. Onde o PT encabeça a chapa, composições com partidos para além deste espectro poderão ser autorizadas pelo Diretório Estadual. Nas situações em que o PT não encabeça a chapa e o candidato seja de um partido que não integre o espectro citado acima, somente serão permitidas alianças táticas e pontuais se autorizadas pelo Diretório Estadual, desde que candidato(a) tenha compromisso expresso com a oposição a Bolsonaro e suas políticas e não tenha práticas de hostilidade ao PT e aos presidentes Lula e Dilma. O PT Nacional decide que não ocorram alianças com os partidos que sustentam o projeto ultraneoliberal (DEM, PSDB) e veta qualquer aliança com aqueles que representam o extremismo de direita em nosso país.”

Waguinho, deputada Daniela do Waguinho e Flávio Bolsonaro

Um comentário em “Belford Roxo: o impasse da “política de alianças”

  • 12 de agosto de 2020 em 01:22
    Permalink

    INACEITÁVEL A SITUAÇÃO EM BELFORD ROXO/RJ!!!
    É PRECISO REVERTÊ-LA, JÁ!!!

    Resposta

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