Luísa: “a frase ‘socialismo ou barbárie’ nunca teve tanta atualidade”

Reproduzimos na íntegra a fala de Luísa Hanune, durante a plenária nacional virtual do DAP, realizada neste sábado (13). Luísa é Secretária-geral do Partido dos Trabalhadores da Argélia e co-coordenadora do Acordo Internacional dos Trabalhadores (AcIT)

Luisa Hanune
Luisa Hanune

Infelizmente, a minha libertação em fevereiro coincidiu com a pandemia mergulhando toda a humanidade numa situação extraordinária. Todos sabemos o impacto disso em escala mundial.  Numa nova situação que vivemos, quase unanimemente os governos tomam medidas que revelam o caráter bárbaro do sistema capitalista. Adotam medidas muito parecidas, que mostram sua incapacidade de defender o povo de um vírus e utilizam a pandemia para atacar os direitos dos trabalhadores e dos povos.

As imagens que vemos sobre a situação dos povos na pandemia parecem imagens que vimos em livros, da 1ª Guerra Mundial e da 2ª Guerra mundial. Jamais como hoje em dia os povos estiveram tão simultaneamente unidos diante das consequências como nessa pandemia. O que provocou a impotência de enfrentar o vírus foi um processo de sucateamento dos serviços públicos de saúde. Esse sucateamento da proteção social provoca a impotência dos governos. Mesmo as pesquisas científicas que marcaram progressos da humanidade, foram travadas e desviadas para atender os requisitos de lucro do capital. Essa constatação pode ser feita em qualquer país.

O povo trabalhador é vítima e pode apontar o dedo contra o responsável, o sistema capitalista que gerou essa falta de defesa contra uma pandemia. Seja no Brasil ou nos EUA, onde o presidente é contra o confinamento, mas também nos países onde as autoridades são a favor, as consequências sociais e econômicas são terríveis para o povo trabalhador. Nos países onde houve confinamento, isso foi usado como argumento para destruir direitos sociais, empregos e salários. Aconteceu na Europa, França, Espanha etc. e aqui na Argélia.

Ontem na reunião aqui da direção do PT, um companheiro afirmou que o confinamento sanitário não foi feito, foi feito um confinamento político. O governo usou o confinamento para atacar os direitos do povo. Em outros países houve supressão de liberdades democráticas, como a de reunião e a de manifestação. A classe trabalhadora está diante de uma unidade total na ofensiva capitalista na pandemia. Mas mesmo nesse quadro ocorrem manifestações importantes. Em 2019, já haviam explosões revolucionárias (Argélia, Chile, Líbano). As mobilizações de agora são muitos importantes porque criam uma resistência a essa enorme ofensiva que vai se acentuar, a crise do capitalismo se acentua, é enorme. Isso faz com que haja um rechaço ao sistema nos próprios EUA e na Europa.

O sistema já estava dilacerado por suas contradições. O assassinato do negro George Floyd abriu uma situação nova, não apenas porque as mobilizações nos EUA não tem precedentes – maiores do que na época do assassinato de Martin Luther King -, mas pela onda de solidariedade em vários outros países como na Europa. Isso porque o movimento nos EUA expressa não só o combate ao racismo, que é estrutural no capitalismo, mas conjura com a raiva que existe dos povos em geral diante de sua condição de vida. Nos EUA, brancos e negros, lado a lado, dizem isso. O que está em questão é o sistema diretamente.

Em que mundo estamos, quando Trump acusa Maduro de financiar manifestações nos EUA? Em que mundo estamos, quando Erdogan acusa os curdos (minoria na Turquia e países vizinhos da região – NdT) de estarem por detrás das manifestações nos EUA!?

Todo esse movimento coloca uma responsabilidade para nós, militantes do movimento dos trabalhadores. Como ajudar essas explosões que ocorrem na pandemia a encontrar um caminho, uma direção? No conjunto dos países onde o confinamento foi imposto, ele serviu para raptar nossos direitos elementares, democráticos e sociais. A volta às ruas começa a soar em vários países, na Argélia devemos voltar nos próximos dias. Temos notícia de manifestação no Japão. No Líbano se retoma o processo de antes. Na Tunísia recebemos notícia. Aqui na Argélia vamos retomar as ruas contra aqueles que usam a pandemia para atacar direitos e agredir liberdades. Vocês tem visto na França… na Espanha. É uma indignação que aumenta no fundo da sociedade e acusa os governos de responsáveis por essa tragédia na humanidade.

Na Argélia, se aproveitaram do período para atacar a Previdência. No ano passado, estourou um processo revolucionário com milhões na rua aqui. O ano inteiro milhões gritando “fora o regime”. O governo empurrou uma Constituição reacionária para sufocar esse movimento na pandemia. Mas, ontem já teve uma manifestação com determinação contra o regime reforçado por três meses de confinamento, de ataques ao povo e de entrega da nação.

Estamos unidos contra esse sistema capitalista e todos os governos que estão a seu serviço. A frase “socialismo ou barbárie!” (Rosa de Luxemburgo, 1916 – NdT) nunca teve tanta atualidade. Temos de nos esforçar para esforçar a coordenação e o intercâmbio internacional no combate a esse sistema. A saída não se dará em cada nação isolada, mas num movimento de conjunto contra o sistema. É a sobrevivência de todos nós que está em jogo. Temos de construir a força capaz de coordenar todo esse movimento para abater esse sistema.

Saudação a todos vocês na esperança de nos reencontrarmos em melhores condições!

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